terça-feira, 13 de agosto de 2013

carona

a arte de tratar as pessoas a pão-de-ló
quando as mesmas só vão te esquentando a banho maria.

nunca passou por isto?
sabe como é...
vão chegando de mansinho, propõe inúmeros programas
você a levando para outros
e a gente nem se liga que a água vai secando.
e a pessoa nem se importa de te deixar queimar.

mas quando esta pessoa percebe que deveria ter trocado a água
é tarde demais.
o pão já murchou, a água já secou e a amizade acabou.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

perdas

[faz parte daquele tipo de sensação que não se contenta em apenas ficar entalado na garganta ou dançando feito lágrimas nos olhos]

conviver, lidar, sentir, lutar por.
não sei o termo exato a ser usado relacionado com perdas.
nem exatamente o que sentir. seja por si ou pelo outro.
tudo foge no momento...as palavras, as ações..mas ao mesmo tempo o sentimento resgata e gruda nestes dois. talvez seja pela necessidade de querer e não querer ao mesmo tempo.
mas é difícil.
agora mesmo vou escrevendo sem saber exatamente o que falar, o que demonstrar.
no que auxiliar para que esta pessoa não se afogue.

procurar motivos para voltar a sorrir. motivos para saber que ela/ele é querida/o, que o que precisar estou aqui. talvez fazê-la/lo sentir abraços imaginários no momento, já que está longe.

escrevi uma vez em algum lugar que "'vai ficar tudo bem" porém "estas palavras são mais fáceis de serem ditas do que sentidas".

mas sinta. sinta duplamente. porque sabemos que seu pensamento é pulsante.
sempre.



08/08/2013 - 23:17 - e uma luz no céu.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

recordação - Antonio Prata

'Não faz sentido, pra que que a pessoa quer gravar as coisas que não são da vida dela e as coisas que são, não?'

"Hoje a gente ia fazer 25 anos de casado", ele disse, me olhando pelo retrovisor. Fiquei sem reação: tinha pegado o táxi na Nove de Julho, o trânsito estava ruim, levamos meia hora para percorrer a Faria Lima e chegar à rua dos Pinheiros, tudo no mais asséptico silêncio, aí, então, ele me encara pelo espelhinho e, como se fosse a continuação de uma longa conversa, solta essa: "Hoje a gente ia fazer 25 anos de casado".

Meu espanto, contudo, não durou muito, pois ele logo emendou: "Nunca vou esquecer: 1º de junho de 1988. A gente se conheceu num barzinho, lá em Santos, e dali pra frente nunca ficou um dia sem se falar! Até que cinco anos atrás... Fazer o que, né? Se Deus quis assim...".

Houve um breve silêncio, enquanto ultrapassávamos um caminhão de lixo e consegui encaixar um "Sinto muito". "Obrigado. No começo foi complicado, agora tô me acostumando. Mas sabe que que é mais difícil? Não ter foto dela." "Cê não tem nenhuma?" "Não, tenho foto, sim, eu até fiz um álbum, mas não tem foto dela fazendo as coisas dela, entendeu? Que nem: tem ela no casamento da nossa mais velha, toda arrumada. Mas ela não era daquele jeito, com penteado, com vestido. Sabe o jeito que eu mais lembro dela? De avental. Só que toda vez que tinha almoço lá em casa, festa e alguém aparecia com uma câmera na cozinha, ela tirava correndo o avental, ia arrumar o cabelo, até ficar de um jeito que não era ela. Tenho pensado muito nisso aí, das fotos, falo com os passageiros e tal e descobri que é assim, é do ser humano, mesmo. A pessoa, olha só, a pessoa trabalha todo dia numa firma, vamos dizer, todo dia ela vai lá e nunca tira uma foto da portaria, do bebedor, do banheiro, desses lugares que ela fica o tempo inteiro. Aí, num fim de semana ela vai pra uma praia qualquer, leva a câmera, o celular e tchuf, tchuf, tchuf. Não faz sentido, pra que que a pessoa quer gravar as coisas que não são da vida dela e as coisas que são, não? Tá acompanhando? Não tenho uma foto da minha esposa no sofá, assistindo novela, mas tem uma dela no jet ski do meu cunhado, lá na Guarapiranga. Entro aqui na Joaquim?" "Isso."

"Ano passado me deu uma agonia, uma saudade, peguei o álbum, só tinha aqueles retratos de casório, de viagem, do jet ski, sabe o que eu fiz? Fui pra Santos. Sei lá, quis voltar naquele bar." "E aí?!" "Aí que o bar tinha fechado em 94, mas o proprietário, um senhor de idade, ainda morava no imóvel. Eu expliquei a minha história, ele falou: Entra'. Foi lá num armário, trouxe uma caixa de sapatos e disse: É tudo foto do bar, pode escolher uma, leva de recordação'."

Paramos num farol. Ele tirou a carteira do bolso, pegou a foto e me deu: umas 50 pessoas pelas mesas, mais umas tantas no balcão. "Olha a data aí no cantinho, embaixo." "1º de junho de 1988?" "Pois é. Quando eu peguei essa foto e vi a data, nem acreditei, corri o olho pelas mesas, vendo se achava nós aí no meio, mas não. Todo dia eu olho essa foto e fico danado, pensando: será que a gente ainda vai chegar ou será que a gente já foi embora? Vou morrer com essa dúvida. De qualquer forma, taí o testemunho: foi nesse lugar, nesse dia, tá fazendo 25 anos, hoje. Ali do lado da banca, tá bom pra você?"

data: 05/06/2013 Folha de São Paulo

terminal

Terminal Parque Dom Pedro. 3:10hs

Eu andando em direção a parada do meu ônibus e vejo um senhor me estendendo a mão.

- Moça, me ajuda a sair daqui.
- Daqui? Qual ônibus senhor? Agora é muito difícil vir um.
- Não moça. Daqui. Da Vida. Me ajuda a voar daqui. A ir embora.

São poucas vezes que ações e palavras ficam atadas. Que você fica sem saber o que fazer. Como assim, ajudar uma pessoa a morrer?
Te resta dar uma de desentendida. Começar a conversar com calma, perguntar de onde ele está vindo, o que faz, até chegar no propósito dele.

- Moça eu perdi minha mulher. Depois perdi meu filho caçula. Não tem mais nada. Aqui já deu para mim. Não tenho mais vontades.

Pergunto dos outros filhos. Ele me fala que tem até bisnetos. Que tem um comércio. Veio de Alagoas e não tem pai (me mostra o RG só com o nome da mãe). Casou-se em Maceió com 14 anos e a mulher tinha 13. Diz que uma das filhas deu muitos conselhos sobre o comércio para prosperar.

- Então senhor. Olha só! Tem seus 5 filhos ainda. Seus 13 netos. Seu bisneto. Ainda tem muita coisa para se passar á eles. Viver. Não vou falar para o senhor ir num médico para querer decorrer sua vida. Vai falar com sua família. As vezes não precisa falar nada. Vai abraçar algum deles. Na próxima vez o senhor será abraçado também. E ainda que o senhor tem bastante gente da família ainda para ir visitar e ser visitado.

Fala que a cabeça já não se aguenta de tristeza (e eu nas lágrimas da tristeza dele). Que já não sabe mais o que fazer. Que o ônibus que quer pegar é daqueles que vai e não volta.

E restava à mim, naquele momento, encher um pouco de vida. Trazer alguns sorrisos nesta conversa. Ao menos para ele se lembrar deste encontro inusitado e ficar uns minutos ainda para viver.

Eu espero que sejam anos.

escrito e postado no Facebook dia 22/06/2013 14:31

terça-feira, 6 de agosto de 2013

lôucuras

entre cabelos, bocas e furacões.
loucuras transformadas em pernas e olhos
caracterizadas entre gatos, cigarros e desenhos
mas foi diante dos batons que levei o tiro certeiro

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

vitrola II

aquele sono me transportou novamente para os toques

...do celular...
...da campainha...
...da ponta dos seus dedos...
...da sua língua....
...dos seus lábios....

e tudo faziam com que as trilhas fossem mais precisas

...a chamada realizada na hora exata
...o alarme que não chegou a atrapalhar
...as mãos procurando e despindo
...a língua encontrando-se com lábios
...e os lábios realizando rastros

toques e trilhas novas se encontrando com prazeres antigos.

ciranda

telefonemas que formulam
encontros que pedem
bebidas que começam com
barulhos que se transformam em
danças que acumulam os
pedidos de haverem mais
telefonemas.