Eu andando em direção a parada do meu ônibus e vejo um senhor me estendendo a mão.
- Moça, me ajuda a sair daqui.
- Daqui? Qual ônibus senhor? Agora é muito difícil vir um.
- Não moça. Daqui. Da Vida. Me ajuda a voar daqui. A ir embora.
São poucas vezes que ações e palavras ficam atadas. Que você fica sem saber o que fazer. Como assim, ajudar uma pessoa a morrer?
Te resta dar uma de desentendida. Começar a conversar com calma, perguntar de onde ele está vindo, o que faz, até chegar no propósito dele.
- Moça eu perdi minha mulher. Depois perdi meu filho caçula. Não tem mais nada. Aqui já deu para mim. Não tenho mais vontades.
Pergunto dos outros filhos. Ele me fala que tem até bisnetos. Que tem um comércio. Veio de Alagoas e não tem pai (me mostra o RG só com o nome da mãe). Casou-se em Maceió com 14 anos e a mulher tinha 13. Diz que uma das filhas deu muitos conselhos sobre o comércio para prosperar.
- Então senhor. Olha só! Tem seus 5 filhos ainda. Seus 13 netos. Seu bisneto. Ainda tem muita coisa para se passar á eles. Viver. Não vou falar para o senhor ir num médico para querer decorrer sua vida. Vai falar com sua família. As vezes não precisa falar nada. Vai abraçar algum deles. Na próxima vez o senhor será abraçado também. E ainda que o senhor tem bastante gente da família ainda para ir visitar e ser visitado.
Fala que a cabeça já não se aguenta de tristeza (e eu nas lágrimas da tristeza dele). Que já não sabe mais o que fazer. Que o ônibus que quer pegar é daqueles que vai e não volta.
E restava à mim, naquele momento, encher um pouco de vida. Trazer alguns sorrisos nesta conversa. Ao menos para ele se lembrar deste encontro inusitado e ficar uns minutos ainda para viver.
Eu espero que sejam anos.
escrito e postado no Facebook dia 22/06/2013 14:31
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